ORTENSI.COM - Artigo: História da Fotografia - A Fixação da imagem (texto de Mauricio Luiz Ortensi) - Filmes.
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São Paulo, 9 de maro de 2010. Boa tarde !
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A história da fotografia


A fixação da imagem


 
Introdução
A Câmera escura
A lente
A fixação da imagem
A cor
A fotografia digital
O futuro da fotografia
 

A câmera escura e as lentes são instrumentos importantes na jornada da fotografia, mas até o século XVII não haviam meios para se registrar as imagens formadas a não ser pelo desenho e pintura. Até então, os homens trabalharam com as leis físicas da luz; agora, vão descobrir sua interação com as leis da química.

Um passo fundamental para a fotografia foi o conhecimento da sensibilidade � luz apresentada por certos materiais, como tecidos tingidos, madeira, couro, etc., que mudam de cor após ficarem expostos por longo tempo � luz solar, mesmo que indiretamente. Mais de 2000 anos antes da invenção da câmera escura, os fenícios descreveram que a pele de certa espécie de caracol mudava a cor de amarelo para púrpura quando exposto ao sol, e voltava ao amarelo quando na sombra. O fato é: a luz tem o poder de reagir com certos materiais.

 

A prata

Em 1606 o cientista italiano Angelo Sala observou que a certos sais de prata, quando expostos � luz se tornavam rapidamente escuros; porém ele atribuiu o fen�meno ao calor e não � própria luz. Mais de um século depois, em 1727, o professor de anatomia alemão Johann Heinrich Schulze observou a mesma reação utilizando cristais de prata halógena que, sob ação da luz se transformavam em prata metálica, mais escura, atribuindo corretamente � própria luz a causa da reação. Desta forma, Schulze é considerado o pai da fotoquímica. Mas o próprio Schulz não ficou muito animado com sua descoberta, pois o que ele procurava não eram materiais que escureciam, mas que brilhavam, como o fósforo. Por este motivo ele cedeu sua pesquisa � Academia Imperial de Ci�ncia de Nuremberg, Alemanha.

 

Em 1800, o químico ingl�s Thomas Wedgewood foi bem sucedido na impressão de silhuetas de folhas e vegetais sobre couro impregnado com nitrato de prata. Mas Wedgewood não obteve �xito em eliminar o nitrato de prata que não havia sido exposto, o qual escurecia quando exposto � luz, eliminando a imagem formada. Ele chegou a tentar capturar imagens por este processo utilizando uma câmera escura, mas nunca conseguiu.

 

A primeira fotografia

 

Em 1820 o cientista franc�s Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) trabalhava para aperfeiçoar a Litografia (do grego: lithos="pedra"; graphos,"escrita"), um processo de impressão inventado em 1798 pelo alemão Aloys Senefeldes e que consiste em reproduzir textos ou desenhos feitos com tinta � base de graxa sobre uma pedra lisa, transferidos para cópias de papel através de uma prensa. Niépce teve a idéia de impregnar uma placa de zinco com cloreto de prata e exp�-la durante horas em uma câmera escura, construída pelos irmãos Chevalier, famosos óticos parisienses. Antes de tirar a placa, ele a lavou com ácido nítrico para retardar um pouco o escurecimento do restante da prata, não exposta, formando uma imagem fraca da cena, sobre a qual era possível desenhar e fazer cópias pelo processo litográfico. A técnica, em ess�ncia,  era a mesma utilizada por Da Vinci séculos antes, mas desta vez era possível fazer cópias a partir de um original.

 

Gernsheim Collection, Universidade do Texas em Austin, EUA

Mas Niépce não estava satisfeito. Em 1826 ele resolveu utilizar um tipo de asfalto conhecido como "betume da judéia", que endurecia quando exposto � luz, para revestir uma placa de zinco colocada em uma câmera escura, posicionada na janela de seu quarto. Após 8 horas de exposição, ele lavou a parte não endurecida do betume e obteve um original em relevo da imagem. Aplicando tinta e prensando o original sobre uma folha de papel ele produziu a primeira fotografia da história (figura1), � qual batizou de heliografia (do grego: helios="sol"; graphos,"escrita").

figura 1: Heliografia de Niépce

 

Em 1827, Niépce foi � Inglaterra, levando consigo várias heliografias. Lá conheceu Francis Bauer, pintor botânico que de pronto reconheceu a importância do invento. Aconselhado a informar ao Rei Jorge IV e � Royal Society sobre o trabalho, Niépce, cauteloso, não descreve o processo completo, levando a Royal Society a não reconhecer o invento. De volta para a França, deixa com Bauer suas heliografias, incluindo a primeira, que hoje se encontra nos Estados Unidos.

Naquele mesmo ano Niépce foi apresentado pelos irmãos Chevalier, ao pintor franc�s Louis Jacques Mandé Daguerre (1789-1851), que fazia shows de imagens com câmeras escuras em Paris, chamados "diodramas". Após se corresponderem por meses, firmam uma sociedade em 1829 com o propósito de aperfeiçoar a Heliografia, compartilhando seus conhecimentos secretos. Daguerre, verificando as limitações do betume da Judéia, decidiu prosseguir sozinho nas pesquisas com a prata halógena. Suas experi�ncias consistiam em expor, na câmara escura, placas de cobre recobertas com prata polida e sensibilizadas sobre o vapor de iodo, formando uma capa de iodeto de prata sensível � luz.

Certa noite, em 1838, Daguerre guardou uma placa já exposta de cobre coberta com uma emulsão de halogenetos de prata dentro de um armário onde havia um term�metro de mercúrio que se quebrara. Ao amanhecer, abrindo o armário, Daguerre constatou que a imagem da placa tornara-se visível. Em todas as áreas atingidas pela luz o mercúrio estava mais claro. Daguerre banhou a placa revelada pelo mercúrio em uma solução de água e sal comum (cloreto de sódio) para dissolver os halogenetos de prata não revelados, formando as áreas escuras da imagem. Posteriormente substituiu o cloreto de sódio por Tiosulfato de sódio, que garantia maior durabilidade � imagem. Este processo foi batizado com o nome de Daguerreotipia e as câmeras escuras construídas segundo os seus princípios foram chamadas de Daguerreótipos.

figura 2: Daguérre e modelo de
seu daguerreótipo. Foto feita
por ele mesmo em 1839.

Em 7 de janeiro de 1839 a invenção de Daguerre foi anunciada � Academia Francesa de Ci�ncias pelo seu amigo François Arago, um respeitado cientista, e provocou sensação. Jornais de vários países noticiavam o fato. O governo franc�s concedeu a Daguerre a ao filho de Niépce, Isidore, pensões vitalícias e reconhecimento nacional aos seus direitos sobre a divulgação pública de suas descobertas. Além disso, a patente do daguerreótipo também foi obtida na Inglaterra.

Inicialmente, o processo de Daguerre não era muito sensível � luz e requeria tempos de exposição que chegavam a 30 minutos, dificultando a obtenção de retratos de pessoas. Mas os tempos de exposição foram rapidamente reduzidos graças � novos aperfeiçoamentos feitos por pesquisadores na Áustria, Inglaterra e nos Estados Unidos. Em pouco tempo, os grandes centros urbanos ficaram repletos de daguerreótipos, fazendo até mesmo com que vários pintores retratistas da época temessem que a nova técnica provocasse o fim de sua profissão.

Por volta de 1840 muitas grandes cidades no mundo já contavam com estúdios fotográficos para produção de retratos; fotógrafos ambulantes, com daguerreótipos portáteis, visitavam cidades menores fazendo retratos a preços acessíveis, tornando a invenção popular entre todas as classes sociais.

O negativo

Voltando um pouco a história, apenas 3 semanas após o anúncio pela Academia Francesa, um cientista amador ingl�s, William Henry Fox Talbot (1800-1877) soube dos fatos e ficou extremamente contrariado, pois a invenção francesa era muito semelhante a uma invenção sua, chamada "desenho fotog�nico", que desenvolvera durante anos mas não a havia divulgado por julgá-la ainda imperfeita. Em uma câmera escura, Talbot carregava papel sensibilizado por uma emulsão de cloreto de prata, que após uma exposição que variava entre meia e uma hora formava uma imagem com tons invertidos (imagem negativa). A imagem era fixada em sal de cozinha e submetida a um contato com outro papel sensível, onde obtinha-se uma cópia não invertida. Talbot apresentou o processo � Royal Society em Londres, onde o cientista Sir John Herschel sugeriu o uso de Tiossulfito de sódio como fixador em lugar do sal e, pela primeira vez, sugeriu os termos fotografia, negativo e positivo. Após substituir o material sensível por iodeto de prata e utilizar ácido gálico como revelador, Talbot chamou o processo de "calotipia" e, por ser considerado diferente da daguerreotipia, obteve a sua patente em 1841.

Embora a calotipia, ou "talbotipia" tivesse qualidade inferior e fosse mais cara que a daguerreotipia, ela foi a base para as modernas tecnologias de filmes negativos. Talbot aprimorou suas técnicas e em 1844 publicou o primeiro livro ilustrado com fotografias do mundo, chamado "The Pencil of Nature", onde havia 24 "talbotipos", além de explicações detalhadas sobre o seu processo e padrões de qualidade para as imagens.

Estúdio de Talbot em Reading, 1844

 

Até então, as imagens obtidas pelos métodos de Daguerre e Talbot possuíam grande contraste e pouca variação de tons. Em 1847 Abel Niépce de Saint-Victor, primo de Nicéphore Niépce, descobriu que a utilização de uma placa de vidro coberta com a albumina da clara do ovo sensibilizada com iodeto de potássio, submetida a uma solução ácida de nitrato de prata, revelada com ácido gálico e finalmente fixada no tiossulfato de sódio, proporcionava imagens muito mais nítidas, embora requeresse tempos de exposição de 15 minutos aproximadamente, além de sua preparação ser bastante complexa e as placas poderem ser guardadas apenas durante 15 dias.

Pouco depois, em 1851, um escultor londrino, Frederick Scott Archer, sugeriu uma mistura de algodão de pólvora e éter, chamado de colódio, como um meio de unir os sais de prata nas placas de vidro. Além de muito transparente, o colódio permitia uma concentração dos sais, aumentando em 10 vezes a sensibilidade das placas em comparação �s de albumina, reduzindo assim o tempo de exposição. Seus maiores inconvenientes eram a necessidade de sensibilizar, expor e revelar a chapa num curto espaço de tempo, devido � instabilidade dos reagentes, e o seu alto custo.

Archer não teve interesse em patentear seu processo, morrendo na miséria e quase desconhecido. Porém, graças a ele, os fotógrafos podiam pela primeira vez explorar a fotografia sem esbarrar no problema das patentes. Talbot, acreditando que sua patente cobria o processo colódio, chegou a levar o caso aos tribunais, mas não obteve ganho de causa. Além disso, em 1853 expirara a patente de Daguerre. O caminho para a exploração da fotografia agora estava livre e a criação de uma variação de menor custo do colódio, desenvolvida pelo próprio Archer, aumentou grandemente a popularidade da fotografia. 

Para reduzir os custos do processo com colódio, Archer, com a colaboração de Peter Wickens Fry, branqueava um negativo de colódio sub-exposto e o colocava sobre um fundo escuro de verniz ou tecido, dando assim a impressão de um positivo. Quando um negativo é colocado sobre um fundo escuro com o lado da emulsão para cima, surge uma imagem positiva graças � grande reflexão de luz da prata metálica. Dessa maneira o negativo não podia mais ser copiado, mas representava uma economia de tempo e dinheiro, pois se eliminava as etapas de obtenção da cópia em papel. O nome Ambrótipo foi sugerido por Marcos A. Root, um daguerrotipista da Filadélfia, sendo também usado este nome na Inglaterra. Na Europa, o processo era geralmente chamado Melainotipo. 

No Ambrótipo o fundo escuro
forma uma imagem positiva
sobre um negativo (na figura
acima, na parte esquerda o
fundo escuro foi removido)

 

Outra variação do processo colódio, foi o Ferrótipo, ou Tintipo, desenvolvido por Hanníbal L. Smith, um professor de química da universidade de Kenyon, Estado Unidos, que também consistia em um negativo de chapa úmida de colódio com um fundo escuro para a formação do positivo. Mas, ao invés de usar verniz ou tecido, utilizava-se uma folha de metal esmaltada de preto ou marrom escuro, como suporte do colódio. O processo tinha materiais de baixo custo e as novas soluções de processamento químico proporcionavam maior rapidez, o que fez com que obtivesse grande popularidade entre os fotógrafos nos Estados Unidos a partir de 1860, quando começaram a aparecer fotógrafos profissionais fazendo fotos de crianças em praças públicas, famílias em piqueniques e recém casados em porta de igrejas.

Embora os processos baseados no colódio proporcionassem enormes melhorias na qualidade da imagem, as placas com a emulsão precisavam ser conservadas úmidas, o que era um grande inconveniente. Várias maneiras de conservar o colódio durante períodos mais prolongados foram desenvolvidas, de forma que toda manipulação química pudesse ser realizada posteriormente em laboratórios. Mas, em setembro de 1871, o médico e microscopista Ingl�s, Richard Lear Maddox, publicou no British Journal of Photography suas experi�ncias com uma emulsão "seca" de gelatina e brometo de prata como substituto para o colódio. A chapa com emulsão de gelatina era cerca de 180 vezes mais lenta que o processo úmido, mas logo o novo processo foi aperfeiçoado. John Burgess criou e comercializou uma emulsão de brometo de prata e gelatina engarrafada, mas os resultados não foram satisfatórios devido � presença de sub-produtos tais como nitrato de potássio. Em 1873, Richard Kennett produzia emulsões secas e placas preparadas com bastante sensibilidade � luz e em 1878, Charles Bennett publicou que conservando a emulsão a 32�C de quatro a sete dias, se produzia uma "maturação" que aumentava a sensibilidade. A partir de em 1880 várias firmas passaram a fabricar placas de gelatina seca em quantidades industriais. Fabricantes britânicos como a Wratten & Wainwrigth e The Liverpool Dry Plate Co. monopolizaram a fabricação de placas secas e logo fábricas em todos os países passaram a imitá-los, até que em 1883 o colódio estava praticamente abandonado.

o filme

FInalmente, na década de 1880, foi fundada pelo bancário norte-americano George Eastman (1854-1932) a Kodak, que produzia placas secas de gelatina para fotografia. Em 1885 a Kodak revolucionou a fotografia com a substituição das placas por uma película coberta de emulsão sensível, embalada em rolos. Estas películas, chamadas filmes, permitiram a fabricação de câmeras fotográficas de tamanho extremamente reduzido e de baixo custo. Em 1891, o aperfeiçoamento do sistema de rolos de filme permitia que se carregasse a película na máquina em plena luz do dia, tornando o manuseio das máquinas fotográficas tão fácil que agora qualquer pessoa poderia tirar fotografias e mandar revelar os filmes em laboratório. A película em forma de filme também permitiu o desenvolvimento do cinema, que nada mais é do que a produção e posterior projeção em seqü�ncia de uma série de fotografias, sincronizadas com o som gravado.

Todos estes avanços tornaram a fotografia parte da vida das pessoas já no final do século dezenove. Mas, independentemente do processo, a fotografia registrava apenas as variações de luminosidade dos objetos fotografados, ou seja, não havia cor. Isto não incomodava a maioria dos fotógrafos, e não incomoda a muitos até hoje, mas obter uma imagem colorida passou a ser o objetivo de muitos pesquisadores. 

 

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