Entenda o movimento do software livre
Se você leu o artigo anterior (Um
convite ao software livre) e já resolveu adotar o pingüim
(símbolo do Linux) e sua turma para morarem no seu computador,
parabéns, você é uma pessoa inteligente e socialmente responsável (logo você verá por que).
Neste caso, se estiver impaciente para começar logo, pode pular para o próximo artigo (seja
inteligente.. mude!). Mas, se tiver um tempinho, leia antes os
tópicos abaixo para entender melhor o que você está fazendo.
Para entender como é possível que existam softwares livres e
gratuitos de qualidade equivalente ou superior a versões proprietárias pagas e caras
é preciso entender como funciona o mercado de software.
Entendendo o software proprietário
As grandes empresas que desenvolvem softwares (como a Microsoft, a
Adobe, a Macromedia, etc.) investem muito dinheiro em pesquisa e em
salários de analistas e programadores para criarem os seus produtos. Os
softwares são criados como programas de computador escritos em uma
linguagem de programação (como C++, Java, Pascal, Assembly, etc.) e o
programa original de um software escrito numa destas linguagens é
chamado de "código fonte". Posteriormente, o código fonte é "compilado"
e transformado em um formato executável pelo computador (o famoso ".exe",
além de outros como ".dll", ".class", ".ocx", etc). Um programa já
compilado não pode ser modificado pelos usuários e nem as técnicas utilizadas na
programação do código fonte podem ser conhecidas por ele, pois o formato
executável (também chamado de "formato binário") é
composto da chamada "linguagem de máquina", incompreensível para o
ser humano. apenas este formato binário que que as empresas gravam nos CDs
que você compra (ou copia!) e instala no seu computador, junto com
manuais, ajudas, etc. O código fonte que foi criado para gerar o executável
fica bem guardado nos cofres das empresas, que o consideram como segredo
industrial. Ou seja, quando compra um software você não pode
alterá-lo e nem sabe como foi desenvolvido. Este tipo de software é
chamado de "software proprietário". As empresas que produzem e
comercializam softwares proprietários recuperam o seu investimento e
obtém os seus lucros com a venda de cópias oficiais dos programas já
compilados, que podemos usar através de um contrato de "licença de
uso" com o qual concordamos (conscientemente ou não) quando
instalamos o software em nosso computador. Além do lucro da venda de
cópias oficiais com licença de uso, estas empresas ou suas parceiras
também lucram oferecendo suporte técnico, treinamento,
personalização, etc. Com o tempo e com o avanço das tecnologias de
informática algumas empresas se sobressaíram e formaram verdadeiros
monopólios no mercado de software, como é o caso da Microsoft, que
possui o seu sistema operacional MS-Windows e a sua suíte de
escritório MS-Office instalados em quase todos os computadores do
planeta. Porém, com este monopólio, os usuários ficam à mercê das
políticas de preços, vendas e atualizações de versões impostas por
estas empresas. Não há opções de escolha, a concorrência desaparece
e, conseqüentemente, os preços se tornam muito mais elevados do que
poderiam ser. Se os preços fossem mais justos e as políticas
comerciais menos monopolistas, será que Bill Gates, o fundador da
Microsoft, seria o homem mais rico do mundo?. Entretanto, esta
política de preços elevados teve um efeito negativo sobre as
próprias empresas que a praticam e acabou provocando a grande onda de "pirataria"
de software que hoje é praticada em todo o mundo e da qual o Brasil é
um dos campeões ("pirataria" é copiar algo que seja
protegido por leis contra cópia, incluindo software para computador,
CDs de música, DVDs, jogos eletrônicos, livros, etc.). Mesmo
com as técnicas de bloqueios, chaves codificadas e outras artimanhas
utilizadas pelas empresas para dificultar cópias ilegais, os usuários
mais espertos (e desonestos) sempre dão um jeito de quebrar as
proteções e copiar os programas. Algumas pessoas passaram a ganhar
dinheiro vendendo cópias ilegais de softwares e com o tempo surgiu um
grande mercado paralelo de softwares piratas vendidos por preços muito
inferiores às cópias oficiais. Estas cópias, não importa quais sejam
os argumentos ou justificativas de quem as vende e nem de quem as
compra, constituem pirataria e pirataria é crime (leia os
artigos sobre pirataria). Para
tentar reverter este cenário, vários
profissionais e empresas começaram a estudar novas formas para produzir
e distribuir software. Deste movimento surgiram as licenças de software
livre que hoje dão suporte legal e garantem a continuidade do movimento
sem o risco de exploração comercial indevida (leia o artigo sobre licenças
livres). Assim, foi para fugir da dependência de uma
tecnologia mantida em segredo e comercializada ao bel prazer de grandes
corporações e para eliminar a pirataria que surgiu o movimento do
software livre, explicado no próximo tópico deste artigo.
Entendendo o software livre
Antes de mais nada, o software livre não consiste em nenhum milagre, nem é um complô contra
a Microsoft, nem algo do submundo dos programadores. Este é um
movimento apoiado por grandes empresas e conta com muitos dos melhores e
mais brilhantes programadores do mundo. O motivo de grandes empresas de
hardware tais como IBM, Sun, Intel, HP,
Dell, etc., apoiarem o movimento é que, ao comercializarem os seus
equipamentos estas empresas precisam fornecer o software mínimo
necessário para o seu funcionamento ("hardware" é o equipamento físico que constitui o
computador propriamente dito). Este software mínimo é composto principalmente pelo sistema
operacional (como o MS-Windows, por exemplo). Assim, estas empresas acabam também vítimas
do monopólio e dos preços elevados das empresas de software, o que aumenta o
custo final dos seus produtos. Algumas destas empresas criaram seus próprios sistemas
operacionais, quase sempre com base no Unix, mas isto acabou criando diferenças entre
estes sistemas e gerando incompatibilidades entre eles, dificultando o treinamento
e a utilização por parte dos seus clientes, que acabam forçando
estes fabricantes a compatibilizarem seus equipamentos com o MS-Windows que todo mundo usa e conhece.
Ou seja, é um círculo vicioso que só faz aumentar o monopólio e os preços.
Se um fabricante de computadores vender o
seu hardware sem nenhum software ele simplesmente não funciona e para
utilizá-lo o usuário terá que adquirir os softwares por conta
própria e instalá-los, o que nem sempre é simples por causa da
possibilidade de incompatibilidades, erros e conflitos entre
componentes. E mesmo que o usuário não compre os softwares, mas copie
os CDs de um "amigo" ou compre bem baratinho numas daquelas lojinhas de galeria
ou num camelô (o que é pirataria) ainda assim terá que arcar
com as tarefas de instalação e configuração.
O ideal seria os fabricantes de hardware venderem os seus equipamentos com o maior
número de softwares já instalados e configurados de fábrica, o que
facilita muito a vida do usuário e, como conseqüência, ajuda nas vendas. Entretanto,
neste caso, o fabricante do hardware é obrigado a comprar as licenças de uso dos
softwares que instalar e, para não ter prejuízo, repassar este custo ao
usuário final, o que acaba por dificultar as vendas!. Fica agora claro o quanto interessa aos grandes
fabricantes de hardware poder contar com softwares de qualidade que
possam ser instalados em seus equipamentos sem aumentar o preço para o
consumidor final.
por isso que estas empresas estão investindo no
software livre. Mas, apesar dos atuais incentivos dos fabricantes de
hardware, este movimento é algo maior e mais nobre
do que a estratégia comercial destas empresas. Ele tem as suas
origens nos primórdios da era digital, ainda na década de 1960, quando
universidades e pesquisadores da área de computação faziam parcerias
com empresas de tecnologia para incentivar a pesquisa e a evolução dos
softwares (leia o artigo História do Linux). Entretanto, quando a
informática começou a transformar-se no mais lucrativo negócio da
história, surgiram as políticas de segredo e ocultação de tecnologia
que os fabricantes de software proprietário praticam até hoje.
Estas políticas, aliadas aos preços elevados, impedem que um número maior
de pessoas e pequenas empresas se beneficiem dos avanços
proporcionados pela informática. Foi para tentar mudar este cenário
que, em meados de 1990, empresas e profissionais, mais uma vez com o
apoio de várias universidades em todo o mundo, começaram a
disponibilizar o código fonte dos seus softwares, principalmente
através da Internet, incentivando outros profissionais a colaborarem
com o seu desenvolvimento. esta colaboração, vinda de
muitas pessoas espalhadas pelo mundo e organizadas através da Internet, que permite
que o software livre seja produzido sem os grandes investimentos que uma única
empresa precisaria fazer. Assim o software pode ser distribuído
gratuitamente e com sua tecnologia aberta. Este tipo de desenvolvimento,
além de favorecer a evolução das tecnologias, democratiza o
seu acesso à toda a sociedade pois permite que um maior número de
indivíduos e instituições se beneficiem, e não apenas as poucas grandes corporações
que podem pagar os elevados preços atuais. uma briga entre a democratização do
conhecimento e a ganância comercial. A boa notícia é que cada vez
mais profissionais e empresas têm apostado que vencerá o primeiro time.
A pergunta que muitos fazem é quanto tempo vai demorar até que o
software livre vença a disputa. Bem, isso depende de quantas pessoas e
empresas decidam deixar de ser extorquidas ou de cometer o crime da
pirataria. Ao optar pelo software livre você contribui para baratear,
democratizar e tornar mais justo o acesso de toda a sociedade às
conquistas tecnológicas. O artigo Software
livre e inclusão digital mostra como isso é
possível. |